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O Brasil é um país sério? Afinal, o que seria um País sério

 


ATRIBUEM ao então presidente francês Charles de Gaulle, um político conservador e austero, a frase, talvez até um pouco leviana, “O Brasil não é um país sério”. 

Não sei se ele disse isso – até acredito que não; os franceses são tão contidos, tão discretos, e o general De Gaulle, tido por grande estadista, dificilmente viria a cometer uma gafe dessas, ainda mais com um país amigo.

Não sei também o que é um “país sério”: seria um país em que seu povo não ri à toa e “não brinca em serviço”? Ou um país que anda com suas contas em dia – como dizem os economistas -, “sem déficits primários” e sem dívidas impagáveis? Seria, quem sabe, um país que respeita suas próprias leis e seu povo? Ou talvez um lugar onde não haja desigualdades, nem miséria, nem fome, nem injustiças? 

Um país é uma coisa muito complexa: com seu território, sua gente, seu clima, sua cultura, suas leis, suas crenças, sua história e seu futuro. É difícil saber quando um país é sério ou não.

Por isso, acho que o De Gaulle não entraria nessa roubada de adjetivar um país inteiro como não sério – deve ser lenda. Porém, volta e meia ouço gente dizendo que “Isto aqui não é sério”, referindo-se ao Brasil. Mas as coisas que acontecem e que há por aqui, acontecem e existem também em outros países, mesmo naqueles considerados desenvolvidos e do chamado Primeiro Mundo. 

Por exemplo, é sério um país como os Estados Unidos elegerem o fanfarrão do Donald Trump? Tem alguma seriedade num Berlusconi dirigindo um país como a Itália. E São Paulo eleger o Doria, é sério?

Quando o Fernando Henrique Cardoso declarou publicamente que o apresentador Luciano Hulk seria um bom nome para a Presidência da República, juro mesmo, achei que era piada. Que era blefe ou parolice de político. Não era. 

A elite brasileira – e a maior empresa de comunicação de massa do país -, estava mesmo cogitando pôr o rapaz no cargo máximo da república para animar o “circo”. Não chega a ser nem uma versão tupiniquim do panis et circensis – é só o circensis mesmo; o burlesco. Isso, sinceramente, não me parece uma coisa séria.

Vejo nos jornais que o ex-presidente Lula é, disparado, o preferido pelo povo para ocupar a Presidência da República; vence as eleições de 2018 em todos os cenários e contra qualquer adversário – no primeiro e no segundo turno; não tem pra ninguém. 

O segundo colocado é um fascistoide pior que o Trump, e tem menos da metade das intenções de voto que os consultados dedicam ao ex-presidente metalúrgico. 

Os demais pretendentes continuam patinando lá na rabeira, sem sair do lugar. Portanto, a depender da vontade do povo, Lula volta para a presidência; mas, contra a vontade do povo, parece que ele será impedido de disputar a eleição.

Se a democracia é o “governo do povo”, e se funda na vontade popular, como dizem por aí, – embora eu nunca tenha entrado nessa conversa -, então a exclusão antecipada do preferido pela maioria é um golpe (outro?) contra o regime democrático. Todavia, por incrível que pareça, é precisamente isso o que vai acontecer. 

Não será o povo que decidirá quem deve governá-lo. Ou alguém tem dúvida de que vão impedir o torneiro mecânico de disputar a próxima eleição presidencial? 

Depois de todo esse forrobodó que fizeram com a lei e com as instituições no país, só para derrubar uma presidenta que não cometeu crime nenhum, é óbvio que não vão deixar que o padrinho político dela recupere o trono.

Depois que o maior grupo de mídia do país convocou a torcida para ocupar as ruas com suas camisetas verde-amarelas; depois que mudaram as regras do jogo – durante o jogo -, para considerar crime as “pedaladas” que todos os jogadores praticaram (desde Robinho a FHC); depois que o próprio árbitro desprezou as regras do jogo e infringiu a lei do sigilo telefônico para desestabilizar o time que havia vencido a última partida nas urnas, ninguém vai ficar achando que vão agora deixar o ex-presidente Lula bater o pênalti no último minuto do segundo tempo da prorrogação e levantar a taça. É claro que lhe vão dar o cartão vermelho – e olhe lá se não o colocarem na cadeia, com ou sem provas; as regras que  se danem.

Esculhambar a democracia não é exatamente uma novidade. A história do mundo está cheia de exemplos. Aquela conversa de que o povo é soberano, neste mundo globalizado e dominado pelas grandes corporações econômicas, vai se tornando cada vez mais um “conto da carochinha” – aliás, ninguém sabe quem é essa tal de “carochinha”, ninguém conhece esse conto, nem tampouco tem ideia de quem seja seu autor. 

É como a democracia burguesa: falam dela, dizem que ela existe, que deve prevalecer sobre todos os demais regimes mas, na hora agá, quando é preciso fazer valer os efeitos e os benefícios da democracia, cadê ela?

A democracia brasileira é cheia dessas idas e vindas – sem o povo e contra o povo. Já começa que a independência do país foi declarada por um príncipe estrangeiro; a república velha foi proclamada por meia dúzia de marechais; a república nova se consolida sob a ditadura do Estado Novo; a democratização de 1946 naufraga em 1964 sob o coturno dos militares; a redemocratização corporificada na Constituição de 1988 se esvai nas brumas de um golpe de Estado que anula o voto de 54 milhões de brasileiros e põe na Presidência da República um homem que não seria eleito nem para… porteiro de boate; isso mesmo, vigia de rendez-vous.

Cabe então indagar: uma democracia assim é coisa séria? Um país que despreza a legalidade, que despreza o voto popular, que muda as regras do “jogo democrático” para servir a interesses antipopulares merece ser tido por sério? Não sei. Como já disse, é difícil dizer se um país é ou não é sério. Nem sei o que é ser sério. Não sei sequer se a vida é séria; se a devemos levar assim tão a sério.

Mas uma coisa me parece realmente seriíssima, e cada vez mais óbvia: a democracia representativa – essa, do capitalismo! -, é um arremedo de democracia, um verdadeiro circo; e a elite brasileira que a manipula, essa sim, parece não ter a menor seriedade; pois é bem chegadinha numa palhaçada. 

E que me perdoem os piolins, os arrelias e os chaplins da vida, que sempre trabalharam, e ainda trabalham, muito a sério… Mais sério do que essa elite brasileira que não tem graça nenhuma e ainda costuma pôr fogo no circo.

Texto: Publicado em  por antonioamachado

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